quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

LEITURA EM DIA

( O estado em que se encontra este blog: depois do infeliz post anterior, onde muito se escreveu e pouco se disse, ouso roubar a frase da miss Bomba Inteligente e os parêntesis introdutórios do monsiur Albatrozberdiano. Mais! Ouso afrontar o anônimo chateado que comentou neste post ao voltar a falar de...livros.)

@ Da brasileira Patricia Melo tinha lido Inferno, a impressionante história de um menino de favela carioca que se torna líder do tráfico da área. Um soco no estômago. A história e a escrita de Patricia Melo. Ritimo acelerado e uma linguagem narrativa que nos remete para o universo cinematográfico, familiar á escritora que é também argumentista. As frases curtas, as palavras que se sucedem, são como tiros.

"Sol, piolhos, trambiques, gente boa, trapos, moscas, televisão, agiotas, sol, plástico, tempestades, diversos tipos de trastes, funk, sol, lixo e escroques infestam o local. O garoto que sobe o morro é José Luís Reis, o Reizinho. Excluindo Reizinho, ninguém ali é José, Luís, Pedro, Antônio, Joaquim, Maria, Sebastiana. São Giseles, Alexis, Karinas, Washingtons, Chrisians, Vans, Daianas, Klebers e Eltons, nomes retirados de novelas, programas de televisão, do jet set internacional, das revistas de cabeleireiras e de produtos importados que invadem a favela." - De Inferno, Patricia Melo (2000) -

Agora li a primeira obra, Acqua Toffana. Puro veneno urbano. Patricia Melo disseca a violência em São Paulo através dos relatos da anti-social mulher de um serial killer, que quase sente ciùmes das vitimas do marido, e de um pacato cidadão planeando de mil maneiras o seu primeiro assassinato. Viciante. Mas nota-se um pequeno disiquilibrio entre a primeira e a segunda parte e um certo arrastamento das duas histórias. Fica a impressão de que resultariam melhor como contos (mais curtas). Mesmo assim, já lá está aquela adrenalina de inferno, mas um pouco contida: como águas violentas de uma barragem prestes a rebentar as comportas.

Fiquei com vontade de mais. Estou curiosa por ler as restantes obras, principalmente Matador (de1995 e que foi transposto para o cinema) e o mais recente Valsa Negra.


@ Recebi de presente de natal (eu tenho sorte, ainda há quem me ofereça livros!) A Segunda Era dos Media de Mark Poster. Não poderia receber livro mais útil e adequado á minha situação actual de estudante de comunicação e "bloguista". O livro aborda uma nova interpretação dos média, tendo em conta a teoria crítica(Mark Poster defende que a segunda era dos media está para a nossa época como os meios de produção para os finais do sec. XIX, quando Marx traçou a sua teoria). Em A Segunda Era dos Media o papel dos meios de comunicação nas sociedades actuais é escrutinado e aborda-se também as comunicações eletronicas e as suas relações de diferença com o discruso e a escrita "normais".

Ainda estou a lê-lo por isso guardo mais comentários para depois. Se nenhum visitante se sentir incomodado. Não. Mesmo que algum visitante se sinta incomodado. Eu hoje acordei assim (tau! e vão duas na Bomba Inteligente).

6 comentários:

Antonio Garcia Barreto disse...

Concordo absolutamente contigo quanto às obras que referiste, da brasileira Patrícia Melo. Não sei se conheces as obras do também brasileiro Rubem Fonseca, de quem, aliás, Patrícia Melo se diz de algum modo devedora. Ambos foram (são) argumentistas de cinema. O que admiro mais nas obras de ambos é o despojamento, o ritmo, a crueza e, em Rubem, alguma ironia quase sempre presente. So pa fla...

Kamia aka Chissana Magalhães disse...

Não conheço a obra de Rubem Fonseca mas estava curiosa curiosa porque há quem diga que Patricia se cola um pouco no estilo dele e agora com o seu comentário fiquei mais.
Parece que foi ele que adaptou "O Matador" de Patricia Melo ao cinema.

Filinto Elisio disse...

Kamia

Prometo passar-lhe (por empréstimo) a obra de Rubem Fonseca. Tenho apenas três na minha estante, nomedamente "Feliz Ano Novo", "O doente Molière" e "Pequenas criaturas", mas estes darão a ideia da genialidade do Mestre. Discurso rápido, dinâmico e incisivo. Olhar dissecador numa sociedade, a todos os títulos, filho da puta. E texto de excelência literária, não vendendo gato por lebre. Além disso, já farto da medíocridade local e da literatice nacional (rasca, diga-se de passagem), o texto de Rubem Fonseca nos parece tonificante...
Filinto

Manuel Jorge Marmelo disse...

Parece que já estás bem encaminhada pelos comentadores precedentes. Sim, foi o Rubem que adaptou o Matador para o cinema, onde se chama O Homem do Ano. E a Patrícia adaptou o Buffo & Spalanzani do Rubem, pelo menos. E tens mesmo que ler o Matador e o Valsa Negra, muito diferentes um do outro. E os livros do Rubem, os que o Filinto refere e muitos outros, dos quais destaco o A Grande Arte e o Vastas Emoções, Pensamentos Imperfeitos, os meus preferidos. Punha a minha estante à tua disposição, mas está um bocado longe...
Só por curiosidade, quando escrevi sobre o Inferno utilizei uma parte da citação que fazes na capa do suplemento Milfolhas. O efeito sonoro e visual é fantástico.
Boas leituras! E boas entrada em 2006!

Rosario Andrade disse...

Querida Kamia,
...estou de férias, por isso tenho andado um pouco ausente. Mas não podia deixar de vir desejar-te um Ano Novo repleto de realizações, de alegrias, de muita sorte para a tua vida académica... e de muita blogamizade!!!!!!

Abracicos!

Kamia aka Chissana Magalhães disse...

Yhey! Sinto-me apadrinhada. E bem apadrinhada!Obrigada a todos pelas sugestões e incentivo.
Filinto eu aceito o empréstimo. Já entro em contacto consigo. Agora...não sei se permito a expressão "Filho da Puta"´no meu blog. Sou capaz de ter que remover o seu comentário. :) Tou a brincar...bela critica litarária.

MJM muito obrigada, mesmo! Pelos votos, pela intenção, pelas recomendações.

Rosário és muito simpática. Obrigada pelos teus votos. Já lá vou ao Impressões e Intimidades deixar-te os meus e também desejar-te boas férias.

Bjs a todos.