terça-feira, 11 de abril de 2006

Brokeback Mountain/Crash

Vi os dois filmes no fim de semana passado. São os dois grandes e belos filmes. Decidir qual deles é o melhor é coisa que não intressa aqui e nem eu tenho competência par tal.
Brokeback Mountain é um filme escrito e feito com coragem. Argumentistas, realizador, actores, todos se entregaram corajosamente a algo que sabiam que não ia ser fácil. O filme foi "vendido" como sendo uma história de amor mas Brokeback é também - e não há que ter pudor em dize-lo - uma história de sexo. O sexo, assim como o amor, tem grande importância no vínculo que une Ennis e Jack (Heath Ledger e Jake Gellynhaal, soberbos). Que eles sejam dois homens torna-se, a dada altura, um detalhe.
Ang Lee conseguiu tirar dos seus actores interpretaçõs na medida certa. Havia muito por onde descambar no sentimentalão, mas fugiram disso, e fugiram bem.
A banda sonora também é muito boa e acompanha-nos muito depois do filme acabar.
Depois de ver Brokeback Mountain reforcei a minha ideia de evitar ler e ouvir muito sobre os filmes antes de os ver. Não é que tenha ficado decepcionada (longe disso) ou que estivesse á espera de mais. Mas, certos filmes, é preferível que se os veja sem nenhuma ideia pre-concebida. Em branco.
Paul Haggis, argumentista de Million Dollar Baby e do próximo de Clint Eastwood Flags of Our Fathers , criou uma obra prima. Crash (título português Colisão, sub-título brasileiro No Limite) é um filme mosaico onde várias histórias e personagens se cruzam. Corria-se á partida o risco de, com tantas personagens e histórias entrecruzadas, o espectador perder-se no fio narrativo. Ou mesmo de algumas histórias/personagens ficarem para trás. Mas felizmente isso não acontece.
Em Crash o racismo está em todos os personagens (sejam elas brancas, negras, chinesas ou persas...) mas também a redenção. São personagens extremamente humanas onde, como em todos nós, reside o bem e mal. Com o desenrolar do filme estas personagens como que caminham em direçcões opostas: as que, independentemente dos seus actos, são no fundo ingénuas vão perdendo essa ingenuidade e tornando-se desencantadas. As que desde inicio arrastam consigo o desencanto acabam por enfrentar situações que lhes devolve alguma esperança, alguma fé naquilo e naqueles que o/a rodeiam.
Aflige ver como em Crash aquilo que não é dito (pelos personagens) é tão fatal como o que é dito. E aflige perceber que isso acontece todos os dias aqui, no mundo "real".
Impossivel não ligar Crash a outro grande filme mosaico (um dos meus preferidos) Magnolia de Paul Thomas Anderson. Várias histórias que se entrecruzam, personagens desencantadas e no limite e até o final com o fenómeno da natureza inesperado (está bem que em Magnólia chovem rãs mas, neve em Los Angeles é quase tão inesperado quanto isso).
Quanto a mim, Crash mereceu cada um dos prémios que ganhou, inclusive o Óscar de Melhor Filme. E houvesse um Óscar para melhor elenco esse seria o filme certo para recebe-lo.

7 comentários:

Manuel Jorge Marmelo disse...

Já tens texto para a próxima coluna no jornal.

Kamia aka Chissana Magalhães disse...

Não está muito "pessoal"? Tinha pensado nisso mas talvez com algumas alterações.E talvez só fique com um dos filmes porque também queria falar sobre os projectos de cinema que estão em marcha aqui em CV.

Manuel Jorge Marmelo disse...

Eu gosto da tua visão pessoal sobre o cinema. Como é que se consegue falar de um filme de outro modo?

Não pode ser uma coisa de cada vez?

kara disse...

Acho que ninguém deixa de dar um cunho pessoal quando faz comentários sobre um filme, kamia.
No meu caso Crash foi dos filmes que mais me marcou ultimamente e, torci sempre para que ganhasse o óscar. fica aqui um desafio aos cinéfilos que ja tenham visto o filme : qual a personagem que mais te marcou? a mim foi a do carpinteiro hispânico e a relação de protecção para com a filha. e a tua?

Kamia aka Chissana Magalhães disse...

Olá kara.Qual a personagem que mais me marcou?Oh my...que "mais me marcou" não quer dizer exactamente a a minha preferida. Assim sendo, devo dizer que foi a personagem do Matt Dilon, o policia que tem o pai doente.Não sei explicar... talvez pelo facto de ser capaz de humilhar completamente uma pessoa por ela ser de uma cor diferente da sua mas depois ser também capaz de arriscar a vida para salvar esta mesma pessoa.
Dou por mim a pensar vezes sem conta no filme e este é o personagem que mais me fez questionar e reflectir.Por isso pesnso que foi a que mais me marcou.

almiro disse...

Olá Kamia, achas que os considerados grandes criticos de cinema não metem muito cunho pessoal nas analises? Eu sou um cinéfilo frustrado porque as (boas) novidades (no cinema) passam sempre ao largo de nosotros daqui de CV. E gosto de ler a opinião dos outros até para comparar com a minha. Só não gosto quando é uma opinião exageradamente tendenciosa, porque fere a inteligencia dos outros. Não é teu caso, em absoluto. Afinal, trata-se de uma arte...logo sujeita a interpretações várias. Parabéns pelo Blog

Kamia aka Chissana Magalhães disse...

Olá Almiro.
Quando disse pessoal eu queria na verdade dizer informal. Utilizei uma linguagem muito simples, talvez demasiado. mas o meu objectivo para a coluna do jornal é esse. Falar de cinema de maneira simples, sem pompas, para poder chegar ao máximo de pessoas.
Oh, eu também sofro com a nossa situação. E lá tenho que me render ao DVD para me manter a par dos filmes de jeito.
Sim, claro,cada um faz a sua leitura. Eu não tenho ambições de opinion maker :)
Obrigada.