quarta-feira, 30 de agosto de 2006

Cores


Ontem saí ao início da noite pra dar uma volta a pé, sozinha. Assim, arriscando kasu bodi e tudo.Precisava espairecer.
E não é que no meu percurso alguem - uma voz masculina - chamou-me de branca. Branca. Assim num tom de cumprimento, de piropo, como dizem os portugueses. E eu fiquei a matutar naquilo.
Quando eu era miúda, na escola primária, alguns dos meus colegas me insultavam chamando-me branca moda papaia azedu. Alguns diziam, branca fidju "coperanti" (naquela época, eram assim chamados os estrangeiros brancos que aqui trabalhavam em projectos de cooperação). Excusado será dizer o quão ofendida eu ficava. Mesmo sem preceber bem o significado daquilo, eu compreendia que mo diziam como uma ofensa.
Anos mais tarde, em Portugal, não foram raras as vezes em que me chamaram preta, assim cuspido como se fosse o insulto mais baixo que me podiam fazer. E houve até episódios de gente a dizer-me, como que para consolar-me: " mas tu nem és bem preta, és quase da minha cor, um pouco mais castanha...".
Branca, preta, castanha, quantas cores terão os pigmentos da minha pele? Branco é ofensa, é elogio. Preto é insulto, é orgulho. Mistura é castanho, mulato vem de mula... ás vezes simplesmente não tenho cabeça para compreender tanta... *#&%$@ !

2 comentários:

Silvino Évora disse...

Não dá para entender mesmo, Kamia. Mas, de uma coisa tenho certeza: mula não quero ser... ou será que sou? hehehehehehehehehehe
Há teorias e teorias... muitas vezes, procura-se forçar lógicas nas ciências, como aqueles 'rappers' cabo-verdianos que dizem "emoçón, situaçón, dór na coraçón, paixón, desilusón" e muitos "óns" que só fazem sentido mesmo no mundo de quem os escreve.
A esses 'pseudo-poetas', ainda se compreende e até gosto de ouvir as suas músicas e não propriamente de ouvir o que eles têm a dizer porque a música, muitas vezes, desafia a letra e procura atingir o ser humano com as suas melodias. Mas, essa gente que diz tantas 'asnidades' em nome da Ciência, deveriam saber que a Ciência não se faz com "rimas forçadas", mas sim com dados conclusivos e argumentos sustentáveis. “De mula a mulato, foi um pulo só”. Quem pode dar esse pulo? SÓ UM ASNO.

Silvino Évora

Palavra Imagem disse...

Gostei imenso deste teu pequeno texto. Bjs